
No domingo em que deveriam estar reunidos para os encontros rotineiros, os desbravadores do Clube Leão de Judá trocaram o encontro pelo serviço ao próximo. Com pás, carrinhos de mão luvas e uniformes, foram até o bairro Jiboia Branca ajudar a reconstruir o que a chuva destruiu na casa da colega Keila Ketelen, de 10 anos.
Um dia inteiro de chuva foi suficiente para transformar ruas em rios em Ananindeua, na região metropolitana de Belém. A prefeitura contabilizou 42 mil pessoas atingidas pelo temporal do dia 19 de abril. No Jiboia Branca, uma das áreas mais críticas do município em relação a alagamentos, choveu 100 milímetros em cerca de seis horas, de forma contínua. Na casa de Keila, a água chegou a 50 centímetros de altura.
A garota mora com os avós e dois tios. Parte da mobília foi perdida e os transtornos e prejuízos se acumularam.
A família entrou em contato com a direção do clube Leão de Judá. Em poucos dias, chegaram doações de móveis, eletrodomésticos e materiais de construção. Um empresário doou o barro para o aterro e um pedreiro se sensibilizou e se ofereceu para fazer a reforma sem cobrar pelo serviço.
Mas os amigos de Keila foram além da arrecadação.
O domingo que virou mutirão

No domingo (26), sob supervisão da liderança, os desbravadores chegaram uniformizados para limpar a casa, carregar terra e jogar fora o que não prestava mais.
Para Eduarda Oliveira, diretora do clube, não havia outra saída: “Não tinha como ficar parado ao ver que a nossa desbravadora estava passando por aquela situação enquanto estávamos confortáveis na nossa casa. A gente tinha que fazer diferença na casa dela, mostrar que a igreja, o clube se importa”, explicou.
Carlos Melo, empresário e pai de um dos desbravadores, também estava no mutirão, ajudando no transporte, no lanche e no trabalho. “Os meninos uniformizados, a ação coordenada, uma coisa bonita de se ver. Foi feito tudo despretensiosamente. A gente reuniu, falou ‘vamos ajudar’. Um improviso que deu certo”, disse.
Pequenos, mas capazes

Muitos dos desbravadores nunca tinham feito esse tipo de atividade. Ainda assim, encararam a tarefa com disposição.
Caio Monteiro foi direto ao ponto sobre o que motivou sua presença: “Fazer isso nos conecta um pouco mais com Deus. Eu me sinto muito bem em poder ajudar o próximo porque estou fazendo a vontade de Deus, e esse é um dos principais motivos”, destacou.
Samara Caroline completou com a lógica que aprendeu dentro do próprio clube: “Assim como Cristo amou a igreja, devemos amar uns aos outros. Como todos nós amamos a Keila, decidimos dedicar nosso tempo para ajudar a reformar a sua casa”, pontuou.
Testemunho na comunidade

Na casa da família ainda há muito a ser feito: telhado, parte elétrica e acabamentos estão na lista. Mas o aterro já está no lugar, a limpeza foi feita e as doações seguem chegando. A previsão é de que daqui a dois meses fique tudo pronto.
O desbravador Pedro Simas resume o queo gesto provocou para além das paredes da casa da colega de clube. “Essas ações mostram à sociedade que, mesmo num grupo de jovens de 10 a 15 anos, é possível ajudar quem está em necessidade. A mensagem que deixamos para a comunidade e que se essas crianças conseguem se unir e ajudar, por que eu não poderia também?”, ressaltou.
Já Eidy Oliveira, regional de Desbravadores, destacou o papel dos pais e dos apoiadores no processo: “Nós começamos uma mobilização entre os amigos do clube, os pais correram atrás das doações. Eles são muito parceiros, providenciaram o lanche para o mutirão. Alguns pais que têm mais conhecimento e condição estão pedindo doações e nós trouxemos os meninos para cá, para fazer a diferença”, contou.
Ações como essa reforçam a filosofia do Clube de Desbravadores, que é formar cidadãos conscientes e prontos a ajudar o próximo.
E no meio de tudo isso, Keila resumiu em poucas palavras o que sentiu: “Emoção e felicidade. Eu me senti amada por todo mundo”, conclui.